quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Maria Fernanda



Sempre tive vontade de te escrever, mas hoje eu decidi que seria hora de começar.

Quando eu decidi que estava na hora de dedicar minha vida a outra pessoa que não fosse eu mesma você prontamente se estabeleceu. De lá até o dia do seu nascimento você foi extremamente amada e aguardada... Aí você chegou, e quanto te vi pensei na hora que, sim, eu te amava mais do que tudo no mundo!

Desse dia em diante minha vida mudou drasticamente, nem sempre um mar de rosas, mas foram muitos os momentos maravilhosos em que pude te descobrir e te conhecer. Você foi um bebê que frustrou todas as minhas expectativas e me mostrou que sua personalidade era única, e como eu sempre fiz questão de te lembrar, você era e é muito especial.

Você sempre me demandou mais atenção do que eu acreditava que seria capaz dar, sempre mamou muito, quis muito colo, quis e quer muito de mim, só de mim. E eu sempre lutei contra isso, todos diziam “é culpa sua, você cria a menina na bolha”, mas eu realmente curti e te aproveitei ao máximo, e você também, me queria ao máximo, não aceitava meia mãe. Você não era o bebê ideal, você era o bebê real! E era tão diferente...

Conforme você crescia, íamos aprendendo uma com a outra. Você nunca foi uma criança fácil de conduzir, ou não sei se eu que era uma mãe que não conseguia ou não queria te conduzir, minhas incertezas muitas vezes podem ter te deixado confusa, mas enfim, já internalizei que sou a melhor mãe que você poderia ter, me esforço muito, de verdade, para ser.
Mas por que decidi te escrever hoje?

Por que aconteceu que no meio dessa relação chegou outra pessoa... e “atrapalhou” nosso “barato”.

Quando você completou dois anos e dois meses eu me descobri grávida novamente. Não foi planejado, não foi querido no momento, mas aconteceu. Fiquei feliz, mas um sentimento dúbio me inundava: como vou conseguir dar todo amor e atenção que você estava acostumada? Como não baixar o seu padrão de amor e atenção?

Decidi: quando o novo bebê nascer vou dar mamar e deixar com outras pessoas pra poder cuidar de você, te dar atenção, te carinhar como você já estava acostumada. Mas não foi bem isso que aconteceu.

Catarina chegou e quando olhei pra ela foi bem diferente de com você... quando olhei pro rostinho chorão dela tentei reconhecer ali aquele amor instantâneo, mas era muito diferente da ânsia que tive no primeiro parto da primeira filha. Agora eu já sabia que não era perfeição, que a vida que me aguardava não era um mar de rosas. Como vou fazer pra dar amor pras duas?

Acontece que nesse meio tempo você também cresceu. Com três anos você se parece mais com uma criança do que com um bebê. E com um bebê tão pequeno no colo, você parecia ainda maior, eu passei a esperar de você atitudes que seriam impossíveis para uma criança/bebê de três anos. Nossos conflitos se intensificaram, e eu tento filha, tento todos os dias não ser uma mãe ruim. Mas é tão difícil, pois Catarina, assim como você, não aceita a metade da mãe. Ela mama muito, ela quer muito colo e eu preciso dar! Mas cada vez que eu olho para seus grandes olhos castanho, com aquela expressão de solidão, meu coração se rasga no meio. Quero te pegar também no colo, mas agora sua demanda não é apenas colo, é atenção.

Agora voltando ao motivo da carta... hoje eu falei que você não me dá paz... e eu já repeti isso algumas vezes na hora do cansaço e da raiva – sim, muitas vezes já senti raiva de você – mas logo depois me arrependi e me arrependi muito! A culpa não é sua minha filha! Catarina não dormir não é culpa sua, nem dela... é uma frustração minha. Eu que acredito que ela deveria dormir X horas para que eu possa ter um tempo com você, mas ela não dorme! Daí eu me frustro, me zango e acabo de descontando em você. Esses dias assisti um vídeo de um psicólogo que citou Sartre: “a existência precede a essência”. Não quero que minhas falhas pesem na sua existência.

Sei que você não vai se lembrar disso quando puder ler o que escrevi, mas nós, mães, nem sempre falamos só coisas boas, muitas vezes falamos besteiras que nunca deveriam ser ditas. Eu quero que você saiba que te amo demais, prometo trabalhar duro contra mim mesmo para que não exista próxima vez. Que a próxima carta não tenha esse teor de culpa e que venha contar só coisas alegres sobre nossos dias. Mas pelo menos uma coisa boa saiu do episódio: comecei a escrever!
Quero escrever todos os dias, para você e pra sua irmã, quero conversar com vocês por meio de cartas que mais tarde serão, para mim, lembranças de dias tão tumultuados, mas cheios de alegria.

Com amor,
Mamãe.


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