Sempre tive vontade de te
escrever, mas hoje eu decidi que seria hora de começar.
Quando eu decidi que estava na
hora de dedicar minha vida a outra pessoa que não fosse eu mesma você
prontamente se estabeleceu. De lá até o dia do seu nascimento você foi
extremamente amada e aguardada... Aí você chegou, e quanto te vi pensei na hora
que, sim, eu te amava mais do que tudo no mundo!
Desse dia em diante minha vida
mudou drasticamente, nem sempre um mar de rosas, mas foram muitos os momentos
maravilhosos em que pude te descobrir e te conhecer. Você foi um bebê que
frustrou todas as minhas expectativas e me mostrou que sua personalidade era
única, e como eu sempre fiz questão de te lembrar, você era e é muito especial.
Você sempre me demandou mais
atenção do que eu acreditava que seria capaz dar, sempre mamou muito, quis
muito colo, quis e quer muito de mim, só de mim. E eu sempre lutei contra isso,
todos diziam “é culpa sua, você cria a menina na bolha”, mas eu realmente curti
e te aproveitei ao máximo, e você também, me queria ao máximo, não aceitava
meia mãe. Você não era o bebê ideal, você era o bebê real! E era tão
diferente...
Conforme você crescia, íamos
aprendendo uma com a outra. Você nunca foi uma criança fácil de conduzir, ou
não sei se eu que era uma mãe que não conseguia ou não queria te conduzir,
minhas incertezas muitas vezes podem ter te deixado confusa, mas enfim, já
internalizei que sou a melhor mãe que você poderia ter, me esforço muito, de
verdade, para ser.
Mas por que decidi te escrever
hoje?
Por que aconteceu que no meio
dessa relação chegou outra pessoa... e “atrapalhou” nosso “barato”.
Quando você completou dois anos e
dois meses eu me descobri grávida novamente. Não foi planejado, não foi querido
no momento, mas aconteceu. Fiquei feliz, mas um sentimento dúbio me inundava:
como vou conseguir dar todo amor e atenção que você estava acostumada? Como não
baixar o seu padrão de amor e atenção?
Decidi: quando o novo bebê nascer
vou dar mamar e deixar com outras pessoas pra poder cuidar de você, te dar
atenção, te carinhar como você já estava acostumada. Mas não foi bem isso que
aconteceu.
Catarina chegou e quando olhei
pra ela foi bem diferente de com você... quando olhei pro rostinho chorão dela
tentei reconhecer ali aquele amor instantâneo, mas era muito diferente da ânsia
que tive no primeiro parto da primeira filha. Agora eu já sabia que não era
perfeição, que a vida que me aguardava não era um mar de rosas. Como vou fazer
pra dar amor pras duas?
Acontece que nesse meio tempo
você também cresceu. Com três anos você se parece mais com uma criança do que
com um bebê. E com um bebê tão pequeno no colo, você parecia ainda maior, eu
passei a esperar de você atitudes que seriam impossíveis para uma criança/bebê
de três anos. Nossos conflitos se intensificaram, e eu tento filha, tento todos
os dias não ser uma mãe ruim. Mas é tão difícil, pois Catarina, assim como
você, não aceita a metade da mãe. Ela mama muito, ela quer muito colo e eu
preciso dar! Mas cada vez que eu olho para seus grandes olhos castanho, com
aquela expressão de solidão, meu coração se rasga no meio. Quero te pegar
também no colo, mas agora sua demanda não é apenas colo, é atenção.
Agora voltando ao motivo da
carta... hoje eu falei que você não me dá paz... e eu já repeti isso algumas
vezes na hora do cansaço e da raiva – sim, muitas vezes já senti raiva de você
– mas logo depois me arrependi e me arrependi muito! A culpa não é sua minha
filha! Catarina não dormir não é culpa sua, nem dela... é uma frustração minha.
Eu que acredito que ela deveria dormir X horas para que eu possa ter um tempo
com você, mas ela não dorme! Daí eu me frustro, me zango e acabo de descontando
em você. Esses dias assisti um vídeo de um psicólogo que citou Sartre: “a
existência precede a essência”. Não quero que minhas falhas pesem na sua
existência.
Sei que você não vai se lembrar
disso quando puder ler o que escrevi, mas nós, mães, nem sempre falamos só
coisas boas, muitas vezes falamos besteiras que nunca deveriam ser ditas. Eu
quero que você saiba que te amo demais, prometo trabalhar duro contra mim mesmo
para que não exista próxima vez. Que a próxima carta não tenha esse teor de
culpa e que venha contar só coisas alegres sobre nossos dias. Mas pelo menos
uma coisa boa saiu do episódio: comecei a escrever!
Quero escrever todos os dias,
para você e pra sua irmã, quero conversar com vocês por meio de cartas que mais
tarde serão, para mim, lembranças de dias tão tumultuados, mas cheios de
alegria.
Com amor,
Mamãe.